sábado, 15 de outubro de 2011

O que eu espero...

Essa coisa do tempo “ter uma medida” que é o problema de tudo. Veja só, uma criança desprovida de toda essa noção de “horas”, “hoje”, “amanhã”, “semana que vem”, “mês que vem”, “ano que vem” é plenamente feliz!!! As crianças são livres dessa noção de temporalidade que só adquirimos depois de alguns bocados de anos... O que na verdade (todos sabem) são apenas convenções humanas.

E então a vida começa a passar em ciclos... uma hora, um dia, uma semana, um mês, uma unidade, um semestre, um ano ou ainda fase triste, fase feliz, um momento, um primeiro amor eterno, um segundo amor eterno, infância, adolescência, fase adulta, velhice.

Não teve como não lembrar da música “Sobre o tempo” da banda Crombie


É como eu costumo dizer quando me identifico com uma música: “Essa letra dói”. Não há como adiantar o tempo “Segue a pé passeando deve ser por isso que demora parece que tá brincando pensando que não tem hora”

Bem, pelo menos espero que “O que eu espero” venha sem demora. Não na minha medida humana de tempo, mas na medida daquele que criou o tempo e todas as coisas.

domingo, 9 de outubro de 2011

"One Art" by Elisabeth Bishop

One Art
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.
.....

Tradução por Horácio Costa:

Uma Arte
A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.
Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.
Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.
Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.
Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.
- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Jardim com Flores

Quem me compra um jardim
com flores?
borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro a hera,
Uma estátua da Primavera?
Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?

(Este é o meu leilão!)

[Cecília Meireles in Leilão de Jardim]